Margarida Lourenço
26 de Novembro de 2021

Margarida Lourenço

Margarida Lourenço apresenta nas obras que marcam a sua estreia no CPS, o saber e a Arte de conjugar de forma magistral várias técnicas: impressão digital, serigrafia, colagem e gravura. Tal justifica plenamente o destaque de capa, na revista "arte" Inverno 2021 do CPS que também se distingue por enaltecer a mestria e o detalhe do Atelier CPS na impressão das edições.

Margarida Lourenço é natural de Lisboa, licenciada em Ciências Matemáticas. Teve também formação em desenho e pintura, mas foi na Gravura, nas suas múltiplas possibilidades técnicas, que desenvolveu as suas aptidões artísticas, sendo membro da Associação de Gravura Água-Forte.

Esta série editada pelo CPS, pontuada pelo díptico, interliga-se na cuidada observação da natureza, na sua poética, no valor da manualidade e no elogio ao papel, enquanto suporte privilegiado. Entrevistámos a artista num dos seus ambientes de eleição: o Atelier CPS.

 

 

Que importância atribui às distintas técnicas usadas na produção do múltiplo de arte, no contexto do seu trabalho?

Todas são igualmente importantes no contexto do meu trabalho.
A possibilidade de conjugação de técnicas diferentes como a Gravura clássica (a água-forte, a água-tinta, o chine collé, a maneira negra, etc) ou contemporânea (como as técnicas aditivas e o fotopolímero), a Serigrafia, a Impressão digital e a Colagem permite uma enorme liberdade criativa, na fase de construção de uma imagem que possa vir a gerar uma edição de múltiplos de arte.
No CPS encontrei uma equipa técnica de excelência, com direção artística de Alexandra Silvano e o Atelier CPS onde se podem usar tanto antigas prensas de calcografia e de litografia, como equipamento de serigrafia e impressão digital dos mais actuais. Nestas circunstâncias excecionais em que o diálogo entre autor e equipa técnica flui naturalmente, estão criadas as condições para a produção de edições de múltiplos de arte de elevada qualidade artística.

 

Estas edições assentam num tema vivido idêntico: a observação criteriosa da natureza. Qual o seu contexto e relevância para a atualidade? 

Nas minhas deambulações frequentes no meio da natureza que me é próxima, nomeadamente em São Martinho do Porto, vou observando coisas tão simples como a forma como vão crescendo as árvores e as plantas, como se ligam e parecem comunicar umas com as outras. Observo como se vão revelando com a primeira luz da madrugada, muitas vezes envolta em neblina e sinto a beleza do momento como que suspenso no tempo. Sinto que sou parte daquela natureza e que não estou fora dela, pelo menos naquele momento.
Mas a natureza está a ser destruída pelo Homem por ignorância, desleixo ou ganância, não vendo que destruindo a natureza se destrói a si próprio.
É urgente que a defesa da natureza seja divulgada, entendida, sentida e praticada por todos!

 

Denotam também um olhar estético de proximidade. Faz sentido evocar a cultura tradicional nipónica, no seu sentido sagrado e mais contemplativo?

Naturalmente que sim. De forma cada vez mais urgente, o amor e o respeito pela natureza, na cultura tradicional nipónica deveriam ser um exemplo a seguir.
Na poesia japonesa sobre a natureza, gosto particularmente de Matsuo Bashô (1644-1694). A Assírio e Alvim publicou “O eremita viajante” de Matsuo Bashô (Haikus-Obra completa).
O Haiku é um terceto de 5-7-5 sílabas em que Bashô vai trazer para o primeiro plano dos seus versos tudo o que até aí era desprezado: rãs lado a lado com tigres, ervas rasteiras tão respeitadas como castanheiros, malmequeres maravilhando tanto como flores de ameixieira. É nesta base de inclusão global, holística, que ele situa a fonte de onde vão jorrando naturalmente os seus poemas.

 

Utilizou distintos papéis: Tiepolo da Fabriano, japonês Guinwashi e artesanal do Nepal. De que forma o papel, enquanto suporte, reflete os seus propósitos?

Quando busco a essência das imagens, a escolha do papel artesanal feito com fibras vegetais é parte fundamental do meu trabalho, estando intimamente ligado aos temas da natureza.
No seu manuseamento sinto que, tal como um líquen é uma simbiose de um fungo com uma alga, o papel e o meu trabalho formam uma simbiose dando origem ao trabalho final.

Os papeis japoneses Ginwashi e Kinwashi são feitos de fibras de kozo e cânhamo de Manila, com inclusões de fibras num lado e sendo lisos do outro. O papel Lokta do Nepal é feito à mão com fibras internas de arbustos de folha perene.
Macio. Cores intensas, profundas. Com rebarbas. O papel Lokta pode durar vários milénios (2000-3500 anos).

 

Como é que o contacto direto com a arte contribui para um aperfeiçoamento da sociedade contemporânea?

O materialismo, a situação económica, a competitividade, a velocidade da evolução tecnológica, a exigência de sucesso pessoal e profissional, a solidão, característicos da sociedade contemporânea podem ser factores de stress, desmotivantes. Por outro lado, o contacto direto com a arte pode ajudar a libertar o espírito e incentivar a pesquisa e a descoberta de obras que possam contribuir para uma realização pessoal mais feliz.

 

O que gostaria de transmitir aos jovens colecionadores e amantes do seu trabalho?
Que continuem a interessar-se ativamente pela cultura, em particular pelas artes visuais visitando Museus, Galerias, frequentando cursos, workshops ou seminários e que iniciem ou continuem uma criteriosa coleção de obras de Arte que os faça sonhar.

 

Num mundo vertiginoso e global, o que se espera atualmente de um artista?
Que faça a diferença! Que surpreenda! Que provoque a reflexão!