A artista marroquina Ghizlane Agzenaï tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais singulares da nova geração da arte contemporânea marroquina. Nascida em Tânger, a sua criação artística reúne pintura, escultura, arte urbana, instalação e design, construindo composições que oscilam entre a abstração, as linguagens visuais da arquitetura brutalista e futurista e da memória cultural marroquina.
As suas obras, que a artista designa como “Totems”, conjugam formas dinâmicas, ritmos cromáticos e estruturas geométricas inspiradas tanto na Op Art de Victor Vasarely e Bridget Riley, como no legado modernista marroquino de Mohamed Melehi e da Escola de Casablanca, na década de 1960. Entre o espaço público e o espaço expositivo, Ghizlane procura criar experiências sensoriais e universos envolventes que convidam o espectador para uma experiência imersiva com as suas obras.
Esta colaboração com o CPS surge na continuidade do projeto “Raízes e Horizontes: Arte Marroquina no Feminino”, desenvolvido em 2024, dando agora origem a novas edições de obra gráfica, entre as quais duas serigrafias, uma delas em grande formato e, pela primeira vez no seu percurso criativo, explora a técnica da gravura com uma edição em três variantes cromáticas. Este encontro com o Atelier CPS representa uma extensão da sua investigação visual, transportando para a obra gráfica a intensidade cromática, a energia das formas e a dimensão experimental que caracterizam o seu trabalho. Simultaneamente, reforça a aproximação entre a artista e o público colecionador do CPS, tornando acessível uma obra profundamente contemporânea, mas enraizada na cultura e tradição marroquina.
Quem é Ghizlane Agzenaï e de que forma o seu percurso pessoal influenciou a construção da sua identidade artística?
Defino-me, antes de mais, como uma artista visual guiada pela intuição, pela curiosidade e pela necessidade de comunicar através das formas e das cores. Procuro transmitir amor e luz através da minha arte. A minha identidade artística foi-se construindo ao longo das minhas viagens, pesquisas e experimentações. Durante muito tempo procurei uma linguagem visual forte que me permitisse transmitir a minha mensagem de alegria e optimismo, e foi através da geometria que encontrei aquilo que procurava.

Ghizlane Agnenaï no seu atelier em Casablanca, Marrocos. Foto: Joseph Ouechen
Desde muito cedo desenvolveu interesse pelo desenho, pela arquitetura e pelo ambiente urbano. Como nasceu esse fascínio pela geometria, pela ilusão e pela arquitetura? Que importância tiveram para si as referências modernistas, brutalistas e futuristas, como os Spomeniks da antiga Jugoslávia ou os edifícios brutalistas descobertos em Vilnius (Lituânia)?
A geometria é, para mim, a linguagem universal por excelência; atravessa épocas e fronteiras. O meu fascínio pela ilusão e pela arquitetura nasceu da necessidade de redefinir o espaço, de perturbar subtilmente a percepção do espectador para o convidar a olhar para além das aparências.
As referências modernistas e brutalistas, como os Spomeniks da ex-Jugoslávia ou as estruturas massivas que descobri em Vilnius, provocaram em mim um verdadeiro choque estético. Vejo nelas uma poesia bruta: estes gigantes de betão, simultaneamente futuristas e monumentais, desafiam o tempo e elevam-se em direção ao céu. Demonstram que a arquitetura pode ser uma escultura à escala monumental.

Spomenik, Dušan Džamonja, Croácia, 1967
As referências modernistas e brutalistas, como os Spomeniks da ex-Jugoslávia ou as estruturas massivas que descobri em Vilnius, provocaram em mim um verdadeiro choque estético. Vejo nelas uma poesia bruta: estes gigantes de betão, simultaneamente futuristas e monumentais, desafiam o tempo e elevam-se em direção ao céu. Demonstram que a arquitetura pode ser uma escultura à escala monumental.
O seu trabalho cruza frequentemente pintura, instalação, design, escultura e intervenção urbana, criando ambientes imersivos onde o espectador é convidado a entrar no seu universo visual. O que procura despertar no público através dessas experiências?
Procuro oferecer um momento de suspensão, uma ruptura com o tumulto do quotidiano. Ao colocar em diálogo a pintura, a escultura e as instalações, não quero que o público seja apenas um observador passivo: quero que habite a obra, que entre fisicamente no meu universo. O meu objectivo é provocar uma emoção imediata, quase física, através da vibração das
cores. Procuro despertar um sentimento de serenidade, alegria e optimismo. É um convite à reconexão com a própria sensibilidade, uma espécie de bolha de energia positiva num mundo saturado de informação.
As suas composições evoluíram das estruturas geométricas mais rígidas para formas curvas mais orgânicas. Como aconteceu essa transformação no seu processo criativo?
Foi uma evolução que aconteceu de forma muito natural, em paralelo com a minha própria maturidade pessoal e artística. No início do meu percurso, a rigidez geométrica, o ângulo reto e a simetria tranquilizavam-me. Era uma forma de canalizar o caos, de construir uma estrutura sólida e quase matemática.
Com o tempo, senti necessidade de introduzir mais fluidez e movimento. As formas curvas e orgânicas representam o vivo, a respiração, o ciclo da natureza e, de certa forma, uma sensibilidade mais feminina e intuitiva.
O meu processo criativo tornou-se menos rígido: hoje deixo a linha arredondar-se, emancipar-se, para que a obra adquira uma outra dimensão. Actualmente gosto de alternar entre ambos os universos e de os misturar.

Ghizlane Agzenaï, Totem Alafdarinte, Serigrafia, 70x100 cm, Ed. CPS 2026

Não quero que o público seja apenas um observador passivo: quero que habite a obra, que entre fisicamente no meu universo.
Refere frequentemente as suas obras como “Totems”. O que representam esses Totems e que dimensão espiritual, simbólica ou social procura transmitir através deles?
Uma das definições da palavra totem é a de um objeto que representa um espírito benevolente. É exatamente isso que procuro: transmitir amor e luz através dos meus totems. Eles celebram a energia da vida. Concebo-os como objetos protetores carregados de boas vibrações.

Ghizlane Agzenaï, Totem Dingolayinte, Serigrafia, 76x56 cm, Ed. CPS 2026
A cor assume uma presença muito intensa e energética no seu trabalho. Considera a cor um elemento emocional, arquitetónico ou mesmo espiritual?
A cor é central no meu trabalho. Para mim, reúne simultaneamente essas três dimensões.
É emocional, porque determina instantaneamente um estado de espírito e contorna o inteleto para tocar diretamente o coração. É arquitetónica, porque uma cor pode alterar a perceção de um volume, afastar uma parede, criar profundidade ou luz onde ela não existe. Finalmente, é profundamente espiritual: cada tonalidade emite uma frequência, uma vibração energética. A escolha das minhas paletas é uma procura intuitiva constante de equilíbrio, para nutrir o espírito de quem observa.

Totem Irisinte II, Print, 71x50 cm, Ed. CPS 2026

Ghizlane Agzenaï, Atelier CPS, 2026
A arte urbana teve um papel importante no seu percurso, sobretudo pela relação direta com o espaço público e com as pessoas. O contacto com a cidade continua a influenciar a sua criação artística?
Absolutamente. A rua foi o meu primeiro grande espaço de expressão. A arte urbana representa, para mim, generosidade: criar para todos, sem distinção. A cidade continua a influenciar diariamente o meu trabalho. O seu ritmo, os seus contrastes marcantes, as perspetivas em constante mutação e a energia dos seus transeuntes são uma fonte inesgotável de inspiração.
Mesmo quando trabalho em atelier em formatos mais pequenos, mantenho em mim essa escala da rua e esse desejo de fazer dialogar a obra com o espaço que a rodeia.

Dimension 2112 : Genesis, La Galerie 38, Casablanca, Marrocos, 2023. Foto: Joseph Ouechen
O seu trabalho estabelece um diálogo entre a Op Art, a cultura pop, da ficção científica e a tradição visual marroquina. Quais são as referências artísticas e culturais que têm marcado o seu percurso?
Cresci simultaneamente sob a influência da estética retrofuturista do universo da ficção científica e da tradição visual marroquina, nomeadamente a arte do zellige [tipo de mosaico cerâmico característico da arquitetura marroquina]. Sou também fascinada pelo movimento Op Art - figuras como Victor Vasarely ou Carlos Cruz-Diez - pela sua mestria do movimento e da ilusão óptica.
A escolha das minhas paletas é uma procura intuitiva constante de equilíbrio, para nutrir o espírito de quem observa.
Expôs em diferentes países e tem colaborado com instituições e marcas internacionais como Guerlain ou Adidas. De que forma essas experiências internacionais influenciaram a sua visão sobre a arte contemporânea e o seu percurso artístico?
Essas colaborações foram extraordinários aceleradores de reflexão. Trabalhar com casas prestigiadas como a Guerlain ou a Adidas levou-me a sair da minha zona de conforto técnico. Foi necessário transpor os meus códigos - os meus Totems, as minhas linhas, as minhas paletas - para novos suportes. Isso reforçou a minha convicção de que a arte contemporânea não deve permanecer confinada à tela. Ela tem o poder de se infiltrar também no objeto quotidiano.

Ghizlane colabora com marcas internacionais como a Guerlain para a qual desenvolveu a identidade visual de um novo perfume. Foto: Yasmine Bennis
A colaboração com o CPS surge na continuidade do projeto “Raízes e Horizontes: Arte Marroquina no Feminino”. Como foi transportar o seu universo visual para a obra gráfica e que importância teve o diálogo técnico e criativo com o Atelier CPS durante este processo?
Participar no projeto “Raízes e Horizontes: Arte Marroquina no Feminino” é um motivo de orgulho. É essencial dar visibilidade à voz, à força e à diversidade das mulheres artistas marroquinas da atualidade. A transposição do meu universo para a obra gráfica foi um processo enriquecedor. O diálogo com o CPS foi uma troca de saberes muito interessante. Gostei de passar tempo no Atelier para explorar diferentes técnicas e tive uma verdadeira paixão pela gravura. Agradeço a toda a equipa do atelier pelo acolhimento caloroso e benevolente.
Que mensagem gostaria de deixar aos colecionadores e membros do CPS que irão conhecer estas novas edições da sua obra? E que caminhos, ideias ou universos gostaria ainda de explorar no futuro do seu percurso artístico?
Gostaria de agradecer aos colecionadores e aos membros do CPS. Ao escolherem estas edições, fazem entrar uma parte do meu universo e, espero eu, uma parte dessa energia positiva e protetora nas suas casas. Gosto de pensar que estas obras funcionarão como janelas abertas para a harmonia e o optimismo no quotidiano. No futuro, gostaria de aprofundar ainda mais a tridimensionalidade e a imersão. Quero experimentar novos materiais capazes de interagir de forma diferente com a luz, como o vidro, o néon ou metais texturados e continuar a conceber experiências únicas.