Patrícia Portela
Dec. 9, 2021

Patrícia Portela

Escritora, cineasta e artista, Patrícia Portela, atualmente na direção artística do Teatro Viriato, em Viseu, é também autora de diversos projetos artísticos transdisciplinares e fundadora e membro da Associação Cultural Prado. É autora de vários romances e novelas como Banquete (2012, finalista do Grande Prémio de Romance e novela APE) ou Dias Úteis (2017, considerado pelas revistas Sábado e Visão um dos melhores livros do ano). Como Guest Curator do CPS, apresenta-nos as suas escolhas.

 

Pergunto-me não raras vezes porque colocamos algo na parede. Dos nossos lares, dos nossos escritórios, dos nossos espaços privados ou de convívio.
Bem sei que muitos de nós são colecionadores e olhamos para obras de arte que traduzimos em cifrões, ou em prestígio ou em admiração. Muitos de nós somos amantes da arte per se, deliciando-nos com aquela cor, a simetria, a forma, a densidade. Mas ainda assim, porque escolhemos amar um Cruzeiro Seixas e não um José de Guimarães?
Porque adoramos um Rothko mas nunca o poríamos na parede, ou o contrário, porque colocamos um Braque mas nunca o amaríamos de morte? Porque colocamos uma serigrafia de uma Guernica na parede como se fosse uma última ceia (quem teve pais assim?) Eu colocaria uma Via Látea de Tintoretto, houvesse serigrafia em tamanho original que coubesse no meu quarto. Não havendo, escolheria um destes 5 autores que me deliciam e, sobretudo, me comovem, por razões diferentes.

As magníficas fotografias de Duarte Belo sobre o Vale do Coa relembram-me um dos espaços mais mágicos em que pisei. Relembram-me que somos complexos porque nunca fomos simples. Relembram-me que não sabemos, de facto, porque desenhamos, e porque o mostramos aos outros.

A Alice Geirinhas é a minha artista punk preferida. Mulher antes de todas as outras serem mulheres na arte, radical na atitude e na liberdade com que avança na sua arte, tradicional na escolha das técnicas, provocadora na escolha dos temas, mestra no domínio do desenho e da linografia que preencheu todo o meu imaginário, multidisciplinar como todos os grandes. Estes bustos relicários relembram-me que ser mulher é ser uma contradição.

Tenho um fraquinho pela Lisboa subterrânea de João Maio Pinto, que tenho na minha parede. Tive o prazer de convidar este autor, um dos meus preferidos, para a desenhar para o Guia ler e ver Lisboa, para onde convidei mais 20 ilustradores para imaginarem os seus itinerários pela cidade da luz branca. João Maio Pinto escolheu a Ana Hatherley a caminho do Botequim da Natália, e Alexandre O’Neil no seu Príncipe Real para esta serigrafia, e explicou-me em detalhe cada linha desta imagem no dia da inauguração da exposição e do lançamento do livro. Guardo desse dia, as melhores das memórias. A serigrafia que só se encontra no livro tem a Natália Correia e o Césariny, e sobre eles teria eu muito a dizer, e talvez por isso, a próxima escolha seja uma serigrafia deste último mestre.

Foi o nome que me chamou a atenção nesta serigrafia. O do autor e o da serigrafia. Amoris Actus no quadro pode ser AMOR- RIS ACTUS, ou se lermos a correr: amoexactus. Fez-me sorruir. Como aquela obra de arte de YOKO ONO que fez.o John Lennon apaixonar-se perdidamente por ela: uma escada a subir até ao tecto, e se a subíssemos, na galeria, lá em cima poderíamos ler: SIM.

De todas as escolhas Joseph Beuys é a mais actual. Porque deveríamos hoje ser todos Beuys. Porque não há temática mais premente e urgente. Porque é um autor que teve tanto impacto no nosso dia a dia, e que ainda habita (ou assombra os nossos dias) que quase no fez esquecer a sua arte. E a arte maior é aquela que se confunde. Que nos confunde. Que nos relembra que é na confusão que fazemos escolhas, tomamos decisões. E avançamos.